Desafios da conciliação

O facto de a conciliação estar na moda constitui um verdadeiro sinal dos nossos tempos. Há alguns anos, o yuppie e as stock options ocupavam o espaço mediático e faziam sonhar muitos jovens. Mas o que pede hoje a população? Tempo. A família precisa de tempo para cumprir a sua função de criadora e formadora de capital humano e social. Foram necessárias várias décadas para que os crimes ecológicos fossem sancionados. Depois de Quioto e das decisões da UE, a sensibilização para o problema é já uma realidade. No entanto, ainda estamos no início da sensibilização para um problema que nos invade diariamente: as agressões à ecologia humana. A consequência mais flagrante é o inverno demográfico que estamos a viver em todos os países europeus, sem exceção, uma vez que nenhum deles atinge a taxa de reposição da população: 2,1 filhos por mulher em idade fértil. Cinco Días.com Isto é consequência de múltiplos fatores, sendo a falta de conciliação da vida profissional e familiar um dos mais relevantes. A proteção e o incentivo à família, quer por parte das empresas, quer por parte das Administrações Públicas, deveriam constituir uma prioridade social e económica. Não existe outra fábrica humana que contribua com capital humano e o forme para a sociedade, desenvolvendo vínculos afetivos incondicionais. Quando a família falha, transfere-se para a escola uma responsabilidade maior do que aquela que pode assumir, aumentam o insucesso escolar, o consumo de estupefacientes e a delinquência juvenil, além de se desenvolverem comportamentos egocêntricos e pouco solidários que não ajudam a construir empresas fortes nem sociedades justas. Na realidade, um grande número de pessoas trocaria algumas compensações e benefícios por medidas de flexibilidade. A remuneração já não é a única gratificação; espera-se também um salário mental, definido em grande parte pela qualidade da vida privada que a empresa permite ao trabalhador. Nos critérios de seleção de um emprego, a remuneração dá lugar à possibilidade de continuar a aprender e de conciliar trabalho, família e vida pessoal. A família do trabalhador começa assim também a ser importante para a empresa, passando a tornar-se um novo stakeholder da mesma, tal como os fornecedores, os clientes, os acionistas ou a comunidade local. No IESE cunhámos o termo Empresa Familiarmente Responsável (EFR) para nos referirmos às empresas que tornam possível a conciliação da vida profissional, familiar e pessoal de quem nelas trabalha. O índice IFREI (IESE-Family Responsible Employer Index) é citado na imprensa económica como o índice que regista o estado da conciliação nas empresas espanholas. Entre 1999 e 2005, a evolução foi clara: triplicou o número de empresas que têm um programa de conciliação trabalho-família (de 7,3% para 22%), além de ter aumentado a consciencialização das empresas para o conflito trabalho-família, que passou de 5% para 21%. O que é medido neste estudo não são apenas as políticas de flexibilidade e apoio, mas também a cultura existente e os elementos facilitadores para que o programa tenha um acompanhamento eficaz. É cada vez mais evidente que as políticas sociais do século XXI serão políticas de conciliação trabalho-família. Segundo o IFREI 2005, mais de 60% das empresas espanholas consideram necessário dispor de políticas de flexibilidade (nos horários de entrada e saída, trabalho a tempo parcial, licenças de maternidade e paternidade, semana de trabalho comprimida, partilha de empregos, cálculo anual das horas trabalhadas, teletrabalho, videoconferências, apoio na prestação de cuidados a pessoas dependentes…). Mais de 40% das empresas consideram que os problemas familiares irão aumentar nos próximos três anos e que isso provocará mudanças no mercado de trabalho. Dados como os recolhidos no I Congresso Académico Internacional, realizado este verão no campus do IESE, confirmam esta realidade. Eis algumas das conclusões de 60 académicos de 20 países dos cinco continentes: l Os mais jovens — a chamada geração X — passam mais uma hora por dia com os filhos do que os baby boomers. l Aumentou o número de trabalhadores dual centric, isto é, que não têm apenas o trabalho como centro da sua vida (viciados no trabalho), mas também a família. Os estudos mostram que as pessoas dual centric e aquelas que têm a família como prioridade gozam de melhor saúde mental, maior satisfação com a vida e maior satisfação no trabalho. l Dada a rigidez e a maior exigência existentes numa grande parte das empresas, tem vindo a diminuir o número de trabalhadores que pretendem ocupar cargos de maior responsabilidade. l Existe uma tendência generalizada para reduzir as aspirações na trajetória profissional. l Com as novas tecnologias, estão a esbater-se as barreiras entre o nosso tempo de trabalho e de lazer: os trabalhadores sentem-se sobrecarregados e surgem erros, absentismo, stress, rotatividade voluntária e falta de compromisso. A UE sublinha a flexibilidade como um dos dez principais parâmetros que definem a qualidade do emprego de um país. Integrar a diversidade laboral num mundo cada vez mais global e em mudança passa pela flexibilidade nas fórmulas e nos horários de trabalho. Não se trata de trabalhar menos horas, mas de trabalhar melhor as horas que dedicamos às nossas tarefas profissionais. Para isso, porém, precisamos de abandonar a gestão pelo controlo da presença e desenvolver uma verdadeira gestão por objetivos e missões, bem como flexibilizar a legislação laboral para tornar viável o que for melhor em cada caso e situação. Na minha recente comparência perante a comissão parlamentar do Ministério do Trabalho sobre horários, destaquei a forte correlação entre ser uma EFR e apresentar um menor índice de stress e absentismo. Quais são as questões pendentes? Em primeiro lugar, aproximarmo-nos do horário europeu. Para isso, devemos formar dirigentes e trabalhadores na gestão do tempo de gestão e do tempo pessoal, de modo que a flexibilidade e a racionalidade dos horários se traduzam numa maior produtividade empresarial. Por outro lado, é necessário favorecer as EFR através de deduções fiscais no Imposto sobre as Sociedades e da atribuição de mais pontos nos concursos públicos. O certificado EFR pode ser uma ferramenta prática para concretizar esta realidade. Por fim, a Administração deve promover um programa audacioso de conciliação dos horários laborais, escolares e sociais, tal como sugerimos no Livro Branco sobre horários apresentado pela Fundación Independiente e pelo INAP em dezembro passado. E tudo isto com um claro apoio assistencial: as vagas em creches e a assistência domiciliária devem ser uma prioridade para este e para qualquer Governo que aspire a responder às novas necessidades desse triângulo em constante evolução, constituído pela família, pela empresa e pela sociedade.